ENTRE A INDIFERENÇA E A ESPERANÇA: O OFÍCIO DE REEXISTIR.
Nós, que fomos ensinados a nunca desistir, assistimos, impotentes, à desistência daqueles por quem tanto insistimos: nossos alunos. Desistem de si mesmos, de suas possibilidades, da capacidade de pensar, de articular ideias, de ler o mundo para além das aparências. É para isso também que o professor existe: apresentar uma outra possibilidade de mundo.
O gosto pela beleza do conhecimento, o prazer da descoberta, o encantamento das palavras e a inquietação diante daquilo que ainda não compreendemos parecem ter perdido o lugar que deveriam ocupar. Tudo isso rapidamente tornou-se irrelevante. E é nesse ponto que o cansaço deixa de ser apenas físico. O esgotamento da alma, executado por um ser inquietante, gritando por sobrevivência. Às vezes nos sentimos assim: batendo braços em águas profundas e nos afogando no próprio mar do esquecimento.
As noites dedicadas, aulas preparadas, reflexões silenciosas sobre como alcançar aqueles que parecem distantes de tudo. Ensinar perdeu valor. Dói perceber que aquilo a que atribuímos sentido pode não significar absolutamente nada para quem o recebe. Ainda assim, o professor retorna. Abre a porta, organiza as palavras, prepara-se e tenta novamente. Talvez por vocação, talvez por teimosia, talvez porque ainda não tenha aprendido a desistir. Ou, quem sabe, porque reconheça que sua responsabilidade não termina diante da indiferença alheia, embora também não deva ser consumida por ela.
Não podemos controlar tudo. Continuamos fazendo o que precisa ser feito sem transformar cada recusa em uma derrota pessoal. É compreender que o compromisso com a educação não exige o sacrifício absoluto de quem educa, porque o professor também é humano, se cansa, também se decepciona, também questiona o sentido da própria caminhada. E, em determinados dias, talvez a pergunta mais dolorosa não seja por que nossos alunos não querem aprender, mas por quanto tempo conseguiremos sustentar o desejo de ensinar diante daqueles que já não parecem desejar coisa alguma. No fim, permanece a palavra. Permanece o conhecimento. Permanece a porta aberta. O que já não sabemos é quantos ainda desejarão atravessá-la.