Parando agora para escrever esta crônica, lembrei-me: então vem daqui o trauma que, até hoje, me assombra: o medo tremendo de cachorro. Até então, eu não havia identificado sua origem.
Átila era o "mandachuva" da rua. Morava numa casa coberta de flores e plantas ao redor dos muros e à frente do pequeno portão. Sua dona, uma moça que, acho eu, morava só. Ela quase nunca aparecia, só quando se dava conta de seu cão. Tinha voz rouca, sempre com bobes encaracolados e um lenço cobrindo aquela montanha de cabelos. Não sei como a coitada tinha forças para dominar um animal daqueles.
Quando se soltava das cordas, ela, que parecia sempre muito atarefada, dava o alarme à vizinhança:
____Átila se soltou!
E todos na rua iam avisando, passando a notícia de ouvido em ouvido.
Parecia um tigre misturado com zebra: cauda mais afinada nas pontas, nariz ofegante e o barulho característico de quem arrancava as amarras, acompanhado pelo tilintar dos ferros, ilhoses e demais berimbelas da velha coleira, marcada pelos solavancos e arrebentações, chacoalhando na pele do pescoço. Todos nós corríamos para qualquer casa com portões abertos; nem sempre acertávamos as nossas. O medo era geral. Eu me imaginava ensanguentado, jogado na porta de casa.
Quem estava dentro de casa não saía; quem estava fora dava um jeito. Para mim, aquele cachorro, de pelos rajados e rabada chicoteante como a de uma pipa, gerava medo não tanto por sua aparência física, mas pelo alarde que era anunciado sempre que o viam na rua, pois quase nunca isso acontecia. Depois de cheirar toda a rua e levantar uma pata traseira em cada porta, para o pânico de todos, ele sumia em meio aos capins, às lamas, aos mini becos e entre as casas. Átila passava deixando marcas de patas enlameadas.
Foi a primeira vez, no sexto ano de minha vida, que me vi acuado por algo não humano, maior do que eu. Ficava espiando pelas frestas da janela e ouvindo para saber se a dona do animal já o havia capturado.
Convivi com esse medo até que, um belo dia, a moça dos bobes na cabeça foi, com a ajuda dos vizinhos, capturar Átila do outro lado do pequeno bairro, do lado onde a civilização existia e muitos carros também.
Quando os vizinhos e a dona do cachorro vieram rua adentro, como em cortejo, tive coragem. Corri até a porta e vi de perto aquilo de que só ouvia falar.
Aproximei-me de Átila, já morto. Aí pensei: agora Átila se soltou mesmo, pois, para onde foi, será realmente livre no céu dos cachorros. Preso ficava eu quando ele se soltava. Meu pensamento não parava de falar. Agora, meu sentimento era o de uma criança livre. Logo pensei em seguida: quem vai ficar presa na saudade é essa moça, sua dona — ou melhor, ex-dona do cão. Mas aí eu vou poder consolá-la.
Átila se soltou de vez.