Acho que ele vinha quando não aguentava mais a fome roer logo pela manhã, avisando as vísceras para chicotear o estômago. Ele vinha à distância. Eu o via correr. Quando chegava, fingia que estava chegando direto, pela primeira vez. Só que, antes, sem que ele visse, eu o espiava pelo bloco da cozinha. Ele rodeava, rodeava minha casa, mas fingia, com a dor da vergonha, que chegara ali ao acaso. Eu, na cozinha, e a mamãe, no preparo do almoço, olhávamos tristemente a cabecinha suja se achegando com aquele olho magro a espionar.
Aquele menino franzino, o corpo lutando para desenvolver-se no corpo de um rapazinho. Suas vergonhas já bem aparecidas: eu não achava aquilo normal. Certo que eu também não era lá muito servido pela riqueza, mas não estar vestido não fazia parte do meu jogo. Olhava para mim, via roupa completa; eu me sentia um "riquinho".
Na cabecinha de meu querido primo rolava uma lista de alimentos pré-selecionados, eu acreditava, desde sua vinda ao mundo, mas que ele nunca havia conhecido ou comido. Na minha casa também não era lá essas coisas de fartura, mas o que tínhamos era servido a quem chegava. Ele perguntava item por item: "Tem isso? Tem aquilo?". Lembro bem: a mamãe respondia: "Não, meu filho, não tem", como se fosse a um filho mesmo aquela resposta. Doía só de ouvir.
Depois de sugar o catarro do nariz, soltava a última cartada:
___ Não tem nem café com farinha?
___ Café com farinha tem — dizia a mamãe.
Naquele dia específico era café em seu estado natural. A farinha caroçuda que restava no pote caía no copo de extrato de tomate, ainda com a cola do rótulo pregando nos dedos. A colher tilintava com rapidez, misturando o açúcar barato. Enquanto isso, a farinha de puba inchava e endurecia, dando a consistência certa.
Nunca vi um café com farinha fazer tão bem a um pequenino franzino que a fome castigava. E, até hoje, essa frase nunca tentou fugir da minha cabeça. Imagina da cabeça da mamãe. Dessa mesma é que não sai!
Lembro bem de suas pálpebras caídas analisando a situação.
Dias depois, ele já chegava direto:
___ Tia, me dá café com farinha?