A vida é feita de tensão e relaxamento. Na formação de um novo ser humano, o primeiro órgão funcional a se formar no embrião humano é o coração. Embora o sistema nervoso comece seu desenvolvimento muito cedo, com a formação da placa neural por volta da 3ª semana de gestação, é o coração que se torna o primeiro órgão a funcionar. A razão de o coração ser o primeiro órgão funcional é simples: o embrião cresce rapidamente e precisa de um sistema que distribua oxigênio e nutrientes às células. Sem circulação sanguínea precoce, os demais órgãos não conseguiriam continuar seu desenvolvimento: a primeira zona de tensão aparece. É um momento tenso, pois se não houver essa distribuição, tudo piora. Aliás, nosso criador, já sabendo dessa premissa, já tratou de nos acalmar da tensão: uma bomba de infusão rápida capaz de relaxar-nos. Mas essa bomba não pode só relaxar demais nem tensionar muito, então a orquestra é organizada e o coração rege em perfeita harmonia consigo mesmo. Ao contrair ganha força para poder relaxar e contrair de novo. A vida sempre teve que ter dois lados.
Ao término da formação e pronto a conhecer a luz, nascemos em meio a uma tensão terrível: as contrações uterinas. As contrações do parto são movimentos involuntários e rítmicos do útero que têm a função de preparar o corpo (da mãe) para o nascimento do bebê. Elas acontecem porque as fibras musculares do útero se contraem e depois relaxam de forma coordenada. Ao nascer outra tensão: a espera do primeiro choro. Se não acontece, gera preocupações. Se acontece imediatamente, relaxamento e alívio. Nada no mundo é linear. Retas para se encontrarem, uma hora terá que virar para alguns dos lados, daí surge a curva ou as curvas. Quão chato seria tudo fosse sempre em frente, se as decisões não tivessem o poder de mudar rumos.
Essa curva não para na maternidade. Ela continua no primeiro passo. A criança levanta o pé e perde o equilíbrio por um segundo, essa é a tensão. Pousa o pé no chão de novo, esse é o relaxamento. Cai. Levanta. Cai de novo. Cada tombo ensina o próximo passo mais firme. Ninguém aprende a andar sem cair antes. Isso não é só coisa de embrião ou de bebê aprendendo a andar. Todo músculo funciona assim. Contrai pra levantar peso e só fica mais forte se depois for solto. O sono segue a mesma lógica, só que espalhada no dia inteiro, horas de esforço e decisão, até a noite chegar pra desligar tudo. Até respirar é isso. Inspira, o peito tensiona. Expira, o peito solta. A gente faz isso sem pensar, milhares de vezes por dia, e é o mesmo desenho do primeiro batimento lá na barriga.
Talvez a vida inteira seja só isso, o mesmo desenho do coração se repetindo em escalas cada vez maiores. A gente erra, aprende, e cada tentativa carrega um tanto de tensão e um tanto de alívio. Esse ritmo começou lá na barriga, antes da gente saber o que era medo, e ele não pede licença pra continuar. Só continua, todos os dias, mesmo quando a gente nem percebe que tá acontecendo.
Talvez seja por isso que insistimos tanto em chamar de problema tudo aquilo que apenas nos tira do repouso. Confundimos tensão com desastre, quando, muitas vezes, ela é apenas o anúncio de que alguma transformação está em curso. O ferro suporta a ponte porque foi tensionado. A corda do violão só produz música porque está esticada. O arco só lança a flecha porque primeiro aceita ser curvado para trás. Não há potência sem uma força que, antes, pareça contrariá-la. Com a vida acontece o mesmo. Os dias de abundância nos oferecem descanso, mas são os dias difíceis que reorganizam nossas estruturas. São eles que nos obrigam a rever caminhos, abandonar certezas, reinventar estratégias e descobrir forças que permaneceriam adormecidas se tudo fosse permanentemente confortável. O desconforto não é, necessariamente, um erro da existência; muitas vezes, é a própria existência trabalhando em nós.
Talvez o equívoco esteja em desejar uma vida sem oscilações, quando tudo o que existe se sustenta justamente por elas. O mar avança e recua. O dia cede lugar à noite para voltar a nascer. As estações nunca permanecem as mesmas. Até a Terra gira entre a luz e a sombra para que a vida continue possível. A natureza inteira parece nos ensinar que estabilidade não significa imobilidade, mas equilíbrio entre movimentos opostos. Quando olhamos para trás, percebemos que quase nenhuma conquista nasceu dos momentos de completa tranquilidade. Elas costumam surgir depois das perguntas incômodas, das perdas inesperadas, das esperas demoradas e das decisões difíceis. A tensão não veio para interromper a vida; veio para empurrá-la para um lugar onde ela ainda não esteve. O relaxamento, por sua vez, não representa o fim da caminhada, mas a pausa necessária para que um novo ciclo comece.
Talvez seja essa a maior lição escondida dentro do próprio corpo. Desde o primeiro batimento do coração aprendemos, sem saber, que viver não é permanecer contraído nem completamente relaxado. É alternar. É compreender que existem momentos de esforço e momentos de repouso, de subida e de descida, de silêncio e de voz. Quem tenta eliminar um desses lados acaba comprometendo o outro. Um coração que apenas contrai morre. Um coração que apenas relaxa também. No fundo, talvez maturidade seja justamente deixar de perguntar por que a vida nos tensiona e começar a perguntar o que essa tensão está preparando. Porque, se ela acompanha o primeiro órgão que funciona, o primeiro choro, o primeiro passo e o primeiro fôlego, talvez nunca tenha sido uma inimiga. Talvez sempre tenha sido uma das formas mais discretas que a própria vida encontrou para continuar nos ensinando a viver.
Paço do Lumiar-MA, 18 de julho de 2026.
Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras – ALPL, Professor, Escritor, Palestrante, Ator, Diretor teatral e Poeta maranhense.