Horizontes da Escrita
"A qualquer momento um olhar vira texto". E.Cruz
Textos

DOMINÓ, BARALHO E "ME LEVE JUNTO"

 

Qual a diferença entre o funeral de ricos e de pobres? Foi assim que começou, em um bate papo descontraído, porém filosófico, durante a “reunião” em família em um réveillon aconchegante. A abordagem começou no final do jantar, bem tarde da noite na casa da sogra, por um amigo de meu cunhado. Na história narrada, dizia ele, que tudo já começa com a diferença de ambiente, de clima, de “ar” que toma conta do local. Mas explicou que isso não dizia respeito especificamente sobre o local em si, o ambiente palpável. Tudo ocorre da seguinte maneira: parece que quando a gente vai no funeral de um rico, tudo está muito organizado. Um verdadeiro evento. O silêncio e a discrição reinam a sala de velório. Cada passo é muito bem dado para não esbarrar em nada. No funeral do rico, o choro sufocante e demasiado que o ar não consegue ser suficiente, não é só um desabafo emocional que se aproxima do dramático, é tido como um desconforto que pode afetar todos e, portanto, que deve ser evitado. Basicamente, parece que o morto está apenas dormindo, muito choro, muito barulho, acordaria o pobrezinho. De óculos escuros, que num ambiente como esse sinaliza, sem dizer nada, que é fúnebre. É a única licença para usar óculos escuro, mesmo à noite. Segue-se limpando as lágrimas com um lenço delicado, jamais vermelho pois sinalizaria indiscrição; e além do mais associaria o vermelho do lenço com a dor da morte e isso aumentaria a dor da família. Tudo parece diferenciar o pobre daquele choro absurdo que sai até bola de catarro translúcido e limpo na manga da camisa. No funeral do rico, até a cafeteira é silenciosa, para evitar qualquer desconforto. O café tem que ser servido mais rapidamente, o que não aconteceria com o saco coador tradicional de pano e um bule comum.

No funeral do rico, que no pobre chama velório, é claro, não tem muitas conversas e as poucas que há é sobre o currículo acadêmico do defunto. Já no funeral do pobre, todo barulho é muito bem-vindo, indica que a pessoa é, a cada grito, a cada desmaio, a cada “meu Deusssss”, ela era muito querida e amada com todas as forças.  É que na verdade, quanto mais alto o choro, quanto mais alto as lamúrias, com o coro religioso das pessoas que vão cantar para o morto, mesmo que ele tenha sido um ateu escarnecedor, mais demonstração de significado da perda daquele ente querido. Tudo é enfatizado a contento. No funeral do pobre há uma geolocalização local incrível. Sabe de cara a que laço familiar pertence casa pessoa. Os que estão mais juntos e desocupados, tenha certeza que os mais afetados pela dor, irmãos, pais etc, ou aquele amigo   íntimo da família e de infância; outros nem tanto: os que gargalham e jogam apostado baralho, batem peças do dominó quase a rachar a tábua e contando os causos de outros que já morrem da mesma causa. E isso tudo em alto e bom som.

Quando desce o caixão, sobe a dificuldade para tampa-lo e gritos como "me leve junto", "eu vou com você, jogando-se à cova", "eu não vou conseguir viver mais", são anunciados pelas vozes já roucas no funeral do pobre. No entanto, logo em seguida, várias conversas e risos acontecem no funeral. O almoço de família que vai acontecer depois do cemitério, onde cada um levou um prato revela a solidariedade em consideração aos gastos da cerimônia.

A história toda acabou me levando a pensar em algo inevitável: a morte. Em como nós, mesmo sabendo que somos seres destinados à morte como dizia Heidegger (1889–1976) um dos filósofos alemães mais influentes, passamos a vida tentando fugir dessa consciência. Fugimos do pensamento da finitude porque encará-lo exige olhar para aquilo que há de mais vulnerável em nós: deixar de existir. Mas a verdade é que não existe fuga nenhuma que possibilite isso. Todos iremos atravessar essa experiência e, talvez o mais angustiante, ninguém poderá atravessá-la conosco. Ninguém morrera no seu lugar. Essa fila o brasileiro não fura; o “jeitinho” brasileiro, aqui não funciona. A morte é absolutamente íntima. A sua morte pertence somente a você. E você não terá como compartilhar isso depois.

Mas, curiosamente, não foi exatamente a morte que mais permaneceu na minha cabeça depois dessa reflexão. O que mais me marcou foi perceber como determinadas formas de sofrimento parecem produzir, entre os pobres e marginalizados, um senso de comunidade muito mais intenso. E isso não é uma romantização da pobreza ou da escassez material. Miséria continua sendo miséria. A dor social não tem nada de bela. O ponto é outro: mesmo diante das maiores precariedades, muitas vezes encontramos nesses grupos humanos uma força coletiva, um sentimento de pertencimento e uma experiência comunitária que parecem sustentar a vida de uma forma que sociedades extremamente individualistas já não conseguem mais oferecer.

Foi pensando nisso que acabei de conhecer a obra  América Profunda, do filósofo argentino Rodolfo Kusch. E uma das ideias mais interessantes da obra é justamente a diferença que ele estabelece entre o pensamento europeu moderno e as formas de existência presentes nos povos originários e nas classes populares latino-americanas. Essa última a nossa.

Segundo Kusch, o pensamento europeu é profundamente marcado pela ideia do indivíduo. O sujeito nasce como alguém separado do mundo e precisa “vir a ser” alguma coisa: construir uma identidade, alcançar sucesso, dominar a natureza, produzir conhecimento, conquistar estabilidade material e, só depois, integrar-se à sociedade. É uma lógica baseada no controle, na técnica e na crença de que o mundo pode ser racionalmente organizado. Parece que morrer antes é um desperdício.

Não se trata do “ser” individual que precisa conquistar um lugar no mundo, mas do “estar”. Estar no mundo, estar inserido numa comunidade, estar enraizado numa realidade que é inevitavelmente caótica. Aqui, a existência não parte da ilusão de domínio absoluto da natureza ou da vida, porque se compreende que o mundo é, em grande parte, indomável.

Celebrar junto, dançar junto, sofrer junto, rezar junto, tudo isso fortalece os laços coletivos e ajuda as pessoas a suportarem uma realidade que, individualmente, seria insustentável.

No fundo, talvez exista aí uma diferença essencial entre dois modos de existir. De um lado, uma lógica em que o indivíduo precisa carregar sozinho o peso da própria existência. Eu carrego a minha. Do outro, uma forma de vida em que existir significa, antes de tudo, pertencer. Pertencer ou não pertencer, eis a questão: deixar de existir não te dar o direito de ser uma opção.

 

 

Paço do Lumiar-MA, 16 de maio de 2026.

Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras – ALPL, Professor, Escritor, Palestrante, Ator, Diretor teatral e Poeta maranhense.

Emerson MCruz
Enviado por Emerson MCruz em 16/05/2026
Alterado em 06/07/2026
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