A vida, às vezes, nos coloca exatamente ali: no corredor estreito entre a cruz e a espada. Ouvir é como assistir a dois filmes diferentes sobre a mesma cena. Cada uma segura sua “câmera” a partir de um ângulo próprio, um ângulo distorcido pelo cansaço, pelas feridas antigas e por esse ego que, quando acuado, grita para não ter que confessar seus próprios abismos. A gente tem abismos, mas fingimos não vê-lo.
O que assistimos hoje é o colapso de uma dinâmica antiga das pessoas: Quando aceitamos o silêncio, abdicamos da própria voz. E quem resolve reivindicar a postura perdida, faz o outro sentir essa nova postura como um ataque pessoal, um golpe no seu castelo de certezas. É o choque entre quem cansou de calar e quem nunca aprendeu a ser questionado(a). Em um ambiente onde as palavras são usadas como armas, que raramente sabemos manuseá-la, no lugar de servir como ponte, elas servem de abismo.
Nos falta uma espiritualidade que não precise de templos ou de "pauladas" dogmáticas. Falta entender que o sagrado se manifesta no café da manhã, no louvor que flutua na sala ou na leitura de uma página que desarma a alma antes que o dia comece. Jesus não esperava a arquitetura das sinagogas para operar o milagre; Ele transformava o caminho. E é no caminho, no cotidiano das dores mal curadas e dos defeitos sujos, que a paz precisa ser restaurada. Vivemos a era da oratória, mas somos analfabetos na escutatória, como bem dizia Rubem Alves. Estamos sempre prontos para o contra-ataque, com o dedo no gatilho da resposta, antes mesmo de a outra pessoa terminar de sangrar sua dor. Há muito sangre derramado e ninguém vê. Ouvir não é concordar, nem comungar com o erro alheio. Todos temos nossos preconceitos, sim; só nunca admitimos. Preconceito é como inveja, todo diz que é invejado, mas diz que é invejoso. O que nos falta é aprender a ouvir o que o outro está sentindo, porque nossa tendência é falar, ouvir é muito mais difícil pois ouvir implica entrar em choque dentro da gente mesmo, travamos uma luta no nosso interior, a ponto de achar que pelo fato de estarmos ouvindo estamos aceitando; e tem coisa que temos que aceitar mesmo; não conseguimos porque a gente quer falar, e ouvir implica aceitação. Existe uma máxima que certa vez li, que diz assim: "Discordo do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo." Quem escreveu foi Evelyn Beatrice Hall, sob o pseudônimo S. G. Tallentyre, no livro The Friends of Voltaire (Os amigos de Voltaire) de 1906. Ela usou a frase para resumir a atitude de Voltaire sobre liberdade de expressão. Ouvir é um ato de hospitalidade: é dar um lugar para o outro existir dentro da gente sem entrar em conflito com a nossa imagem. É preciso admitir o que ninguém quer confessar: nossos preconceitos moram nos detalhes. Eles estão no julgamento contra quem tem a mesma fé que a nossa, mas não a mesma postura. Estamos facilmente apontando o cisco no olho do algoz, ignorando a venda que colocamos em nossos próprios olhos.
União não nasce da vitória de um lado sobre o outro, mas da coragem de sentarem à mesa, guardarem as armas e, finalmente, aprenderem a difícil e divina arte de apenas se escutarem.
Paço do Lumiar-MA 25 de abril de 2026.
Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras - ALPL do município de Paço do Lumiar-MA, professor, escritor, palestrante, ator e diretor de teatro e poeta maranhense.