Quando comecei não sabia que iria viralizar em mim. Mas viralizou-me. Não se trata somente de prazer, como mencionei no título deste texto, até porque não há possibilidade de fuga do que a leitura pode proporcionar. Trata-se de uma mudança de pensamento, de forma; outro ser nasce. Dimensões se alargam na plasticidade cerebral. Juntamente a esse mundo que se forma, tem-se a leitura dos clássicos. Lê-los é, indiscutivelmente, fora de cogitação não os abraçar. Os clássicos têm alma vivente e sobrevivente em cada folha, em cada parágrafo, linha, capítulo. É o que eleva um escritor, um leitor, o que quer que se seja.
Não há outro prazer mais cativante, para mim, que transformar-me a todo instante em cada história, em cada autor que comigo fala. Livros são filhos. São filhos que escolhemos tê-los, imaginamos, colocamos expectativas. Uns dão mais trabalho que outros; outros, mais difíceis de lidar. Alguns compramos, mas não lemos. Mas eles não reclamam mesmo transpirando pó, ficam lá, quietinhos, acima de qualquer suspeita. E eu sempre suspeito que vou lê-los. Agora mesmo encantei-me por Machado (o Assis). Impecável tecedor de almas. Consegue tecer cada linha com precisão de um bisturi na implantação de uma fina safena que, no caso, a ponte é o livro, e o coração é o do leitor. Quem se envolve não volta mais. Pois ater-se às letras, aos pensamentos mágicos, é sair de si mesmo e ir embora. Ler é ocupar-se inteiramente de si e saber que é você na fila da livraria.
Muito mais que prazer, como já mencionei, os livros te resgatam, ensinam mais que imaginamos, substituem pensamentos. Que gostoso é provar de outros sabores e dissabores! Há uma diversidade nos livros que não há lá fora. O trabalho com a leitura, no meu caso, é manter-me pleno. E talvez seja justamente aí que tudo se completa: ler não é apenas um ato: é um estado. Um estado de permanência em movimento: você pára e deixa o mundo correr! Um deslocamento, mas que transforma tudo por dentro. A leitura não pede licença ela invade, reorganiza, desmonta e reconstrói. E, quando percebemos, já não somos os mesmos que iniciaram a primeira página. Talvez seja por isso que não há retorno. Porque quem lê, de verdade, não acumula apenas histórias acumula vidas. E viver muitas vidas em uma só é um privilégio raro demais para ser ignorado. No fim, não somos nós que lemos os livros. São eles que, pacientemente, nos leem.
Paço do Lumiar-MA 15 de abril de 2026.
Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras - ALPL do município de Paço do Lumiar-MA, professor, escritor, palestrante, ator e diretor de teatro e poeta maranhense.