Horizontes da Escrita
"A qualquer momento um olhar vira texto". E.Cruz
Textos

DESABAFO DE DIAS REVOLTANTES: manifesto pela urgência

 

Sou absolutamente a favor da proibição total do celular em sala de aula. Não se trata de um saudosismo vazio, mas de uma constatação de quem vive o chão da escola: nós viemos de uma época onde o aprendizado era o protagonista. Há, ou deveria haver, um contrato tácito de respeito entre professor e aluno, onde o conhecimento é buscado com esforço e entrega. Hoje, esse contrato parece ter sido rasgado unilateralmente. Todo início de ano letivo venho alertando sobre um fenômeno alarmante: a presença onipresente e quase magnética do celular. Comparando anos anteriores, o salto foi abismal. Algo grave está acontecendo diante dos nossos olhos e, se não agirmos agora, estaremos alimentando um monstro que devorará a essência do magistério, inclusive no ensino superior. Vivi uma experiência que nunca imaginei passar: um embate direto e desgastante em uma turma de 9º ano quase delinquentes. Pela primeira vez, o estresse ultrapassou o limite do suportável. A indisciplina, gerada pela dependência digital, me forçou a tomar uma atitude drástica: EXPULSEI quatro alunos, como se dissesse “saia da minha casa”. Uso a palavra expulsar com o peso que ela carrega, pois o que está em jogo é o domínio do espaço pedagógico. Não podemos aceitar que o entretenimento barato de uma rede social tenha mais valor que a mediação de um profissional da educação. O desdém no olhar desses adolescentes, que seguram o aparelho como se fosse um certo de poder, é um insulto a todos nós que dedicamos nossas vidas ao ensino.

Precisamos encarar a realidade sem filtros: esses alunos não possuem maturidade nem consciência para gerir o uso de tecnologias tão viciantes. Estamos lidando com uma mentalidade em formação que está sendo deformada por algoritmos projetados para capturar a atenção a qualquer custo. É um erro romantizarmos o uso do celular em nome de uma suposta "modernidade" ou "facilidade". O discurso da tecnologia como "facilitadora" virou uma armadilha. Ora, se o professor é o facilitador do conhecimento, como podemos competir com dispositivos que oferecem respostas prontas, superficiais e distrações infinitas? A "comodidade" tecnológica está produzindo uma geração intelectualmente preguiçosa e emocionalmente reativa.

A maioria desses adolescentes, com as raras e honrosas exceções de sempre, não está ali sedentos por conhecimento ou almejando o sucesso através do esforço. Eles estão ali fisicamente, mas suas mentes estão presas em feeds infinitos. O descaso com a educação é palpável e triste. Como adultos e profissionais maduros, não podemos nos curvar a uma maleabilidade que, na prática, anula o nosso trabalho e desrespeita a nossa autoridade.

A escola possui (ou deveria) uma biblioteca, um templo do saber que, lamentavelmente, tornou-se um espaço secundário, quase descartável. O que deveria ser a fonte primária de descoberta e o refúgio do pensamento crítico transformou-se, para muitos, em um mero local de passagem ou distração. Mas isso era no meu tempo, hoje é só um depósito mesmo.  

O celular substituiu o livro, e a busca rápida a IAs substituiu a verdadeira PESQUISA, aquela que exige leitura, síntese e reflexão. A tecnologia deveria ser uma ferramenta acessória, e não o alicerce. Ao priorizarmos, estamos perdendo o "verdeiro sentido" do aprender. A pesquisa acadêmica quer paciência, algo que o imediatismo digital está aniquilando. Estamos criando jovens que sabem clicar, mas que não sabem interpretar; que sabem baixar arquivos, mas não sabem construir argumentos.

Precisamos retomar o verdeiro sentido da escola como um espaço de silêncio, de foco e de profundidade. É necessário que o Poder Público e as direções escolares entendam que a biblioteca precisa voltar ao centro da vida escolar, e o celular precisa ser deixado do lado de fora do portão ou guardado no fundo da mochila, desligado.

Não estamos sozinhos nesse clamor. Muitos estados brasileiros já perceberam que a permissividade falhou e proibiram o uso de celulares em sala, colhendo resultados imediatos na melhoria do clima escolar e nas notas. Mais do que isso, países de "primeiríssimo mundo", que outrora foram entusiastas da digitalização total, estão agora voltando atrás. Especialistas e neurocientistas ao redor do globo estão gritando por socorro, dizendo "NÃO" às telas e pregando o retorno aos livros e ao contato humano. Eles entenderam que o desenvolvimento cerebral de um adolescente não é compatível com a hiperestimulação dos smartphones.

Portanto, este é um chamado à ação. Não desejo mais e acredito que nenhum colega deseje passar por situações de desrespeito e expulsões por causa de um aparelho. É uma questão de saúde pública, de ética pedagógica e de sobrevivência da profissão docente. Ou tomamos providências agora para que essas raízes de desordem sejam cortadas, ou seremos meros espectadores da falência da educação.

 

 

Paço do Lumiar-MA, 15 de março de 2026.

Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras - ALPL do município de Paço do Lumiar-MA, professor, escritor, palestrante, ator e diretor de teatro e poeta maranhense. 

Emerson MCruz
Enviado por Emerson MCruz em 15/03/2026
Alterado em 06/07/2026
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