Horizontes da Escrita
"A qualquer momento um olhar vira texto". E.Cruz
Textos

A CRISE DAS ACADEMIAS DE LETRAS: O Deserto de Máscaras

 

A Academia, em sua gênese, foi pensada para ser o refúgio do pensamento, o solo fértil onde as ideias mais cruas e os textos mais secretos da alma poderiam ser semeados sem medo. Era para ser o lugar do compartilhamento, daquela amizade intelectual que transborda as páginas e se torna vida. No entanto, hoje, o que resta é um vazio decorado. A Academia não é mais lugar de troca; tornou-se um átrio de status, um destino de visitas protocolares em reuniões extraordinárias que de “extraordinárias” só guarda o nome, pois o conteúdo é de uma banalidade assustadora. Diz-se que a convivência literária é um banquete, mas o que vejo hoje é cada um comendo o seu próprio pão em um canto isolado. Não há divisão do “corpo” da Academia; não há comunhão. A instituição, que deveria ser um organismo vivo, tornou-se um amontoado de indivíduos que se ignoram enquanto se olham. Sinceramente, nem sei se devo continuar a escrevê-la com "A" maiúsculo. Onde reside a grandeza de uma instituição que se apequena diante do ego de seus membros? A letra maiúscula exige uma estatura moral e intelectual que hoje parece ter sido substituída pela métrica da conveniência.

Relacionamento literário? Não há mais. O que existe é a manutenção de uma rede de contatos fria. Ninguém mais compartilha seus ideais, ninguém expõe suas dúvidas ou oferece uma cordialidade que não seja calculada. As máscaras são postas com uma precisão cirúrgica assim que adentram o recinto. Na verdade, suspeito que essas máscaras começam a ser ajustadas ainda em casa, diante do espelho da vaidade. E o mais triste é que aquele espaço também é nossa casa; deveria ser a casa de companheiros, de cúmplices da palavra.

Ali dentro, sinto que uma rápida "relação" se encena. É tudo tão veloz, tão coreografado. São momentos de uma cordialidade curta, seca, onde o interesse já nasce morto: o interesse pelo outro é nulo. O foco é apenas vender uma imagem, falar sobre o nada absoluto e ostentar títulos que já não sustentam nenhuma obra relevante. Onde está o gosto pela leitura? Não se fala de livros, não se discutem teorias, não se debatem as angústias da criação. As reuniões de academia hoje se transformaram em meros cumprimentos de um protocolo que nem os próprios participantes sabem mais para que serve. Tornou-se a oportunidade de se mostrar... para si mesmo. Um monólogo coletivo onde cada um espera sua vez de não ouvir o outro.

"A Academia tornou-se um espelho onde os imortais apenas conferem se o próprio brilho ainda está lá, ignorando que a luz da literatura vem da chama do debate, não do reflexo do verniz." Tenham isso como um slogan.

As máscaras sociais se consolidam naquele ambiente e, assim que a sessão termina, todos se retiram secamente. Não há relacionamento fora daquele ambiente. A fraternidade que deveria unir os escritores para além das paredes institucionais evaporou. O ambiente tornou-se oportuno somente à luz daquilo que se pode obter de imediato: um aplauso vazio, uma foto para a rede social, um registro em ata. A literatura, que é a arte do encontro, está sendo sufocada pela burocracia do ego. Se não há troca de alma, se não há o segredo revelado no texto compartilhado, o que resta é apenas um prédio frio povoado por fantasmas de escritores que esqueceram como se lê o coração do outro.

 

 

Paço do Lumiar-MA 15 de março de 2026.

Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras - ALPL do município de Paço do Lumiar-MA, professor, escritor, palestrante, ator e diretor de teatro e poeta maranhense. 

Emerson MCruz
Enviado por Emerson MCruz em 15/03/2026
Alterado em 06/07/2026
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