Horizontes da Escrita
"A qualquer momento um olhar vira texto". E.Cruz
Textos

FORMA E CONTEÚDO  

 

Vejo, nas atuais concepções de ensino e nas críticas aos modelos pedagógicos tradicionais, uma tendência recorrente: tudo o que é historicamente construído passa a ser considerado ultrapassado apenas por ser histórico. Há uma espécie de desconfiança automática em relação ao que tem tradição, como se a marca do tempo fosse, por si só, sinal de atraso. No entanto, o problema mais grave que eu percebo não está apenas aí. O que me preocupa é a crescente minimização do conteúdo em nome da forma. Essa tensão entre forma e conteúdo não ocorre apenas na Matemática; está presente na Literatura, nas Ciências e em toda prática educativa. Ocorre um deslocamento de prioridade: valoriza-se cada vez mais a metodologia, a estratégia, a inovação, enquanto o conteúdo vai sendo relegado a um plano secundário. Mas como qualquer professor vai realizar um trabalho consistente de ensino sem conteúdo sólido? Como exigir que o professor se “reinvente” continuamente se o aluno domina apenas operações elementares. Por exemplo, pergunta-se quanto é 3 × 5, mas hesita diante de 5 × 3, não possui domínio das tabuadas, das operações básicas ou da leitura e interpretação mínimas? A ênfase excessiva na reinvenção metodológica não pode substituir a necessidade de fundamentos. Há um discurso recorrente que cobra do professor criatividade constante: criar estratégias, inovar, adaptar-se, transformar-se. Contudo, pouco se fala da responsabilidade de assegurar que o aluno tenha acesso efetivo ao conhecimento sistematizado. O professor é frequentemente responsabilizado pelo fracasso, como se bastasse “regar” melhor a aprendizagem. Porém, sem uma “semente”, isto é, sem conteúdo consistente não há "germinação" possível. A metáfora que utilizei é simples: não se pode esperar florescimento onde não houve cultivo do conhecimento. Paradoxo que "grita" ao docente é que quando ele prioriza o conteúdo, muitas vezes é rotulado como retrógrado, tradicionalista ou resistente à tecnologia. No entanto, não existe forma sem conteúdo, isso está bem fundamentado na minha cabeça e na minha prática. A forma organiza, dinamiza e potencializa; o conteúdo fundamenta, sustenta e dá sentido. Separá-los é empobrecer o processo educativo. Inovação pedagógica é necessária, mas não pode ocorrer às custas do esvaziamento intelectual. A verdadeira transformação no ensino não está em substituir conteúdo por método, mas em articular ambos de maneira rigorosa e significativa. Sem essa integração, corre-se o risco de produzir práticas atraentes na superfície, porém frágeis em substância e isso, a longo prazo, compromete a formação dos alunos. As "metodologias ativas", o construtivismo/socioconstrutivismo, já fazem muito bem esse estrago. 

 

 

Paço do Lumiar-MA, 20 de fevereiro de 2026.

Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras - ALPL do município de Paço do Lumiar-MA, professor, escritor, palestrante, ator e diretor de teatro e poeta maranhense. 

 

Emerson MCruz
Enviado por Emerson MCruz em 20/02/2026
Alterado em 06/07/2026
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