Falar parece incomodar as pessoas, tenho percebido isso nas minhas tentativas de diálogo. Ouvir a voz do outro se tornou chata, nos toma tempo e temos que olhar no olho e ativar várias conexões: auditivas, visuais, perceptivas, cognitivas etc... E isso já se tornou algo desprazeroso. A retórica virou inimiga da convivência e refém do celular, que não o deixa falar. Estamos presos pela própria palavra. Não olhamos mais nos olhos, corre-se o risco de ser assédio; não nos tocamos jamais, corre-se o risco de sermos enquadrados em algum artigo(penal). Que tristeza a humanidade mergulha. Em casa, no trabalho, na rua, na esquina, no boteco (acho que nem temos mais botecos de bate papo); na escola, na faculdade. Acabou a interação, parece que não precisamos mais do outro nem de ninguém para que haja relação, porque tudo agora é “em rede”. E estamos presos nela. Fazia muito que não tomava um papo bom com os colegas e fui experimentar um dia desses. Que decepção! Tive a impressão que estava sendo cronometrado, o olhar da pessoa reprovando-me. Sinto que conversar agora é sinônimo de fofoca, é coisa ruim. Promessas do tipo: “chegar em casa te falo”, “chegar em casa te ligo”, “quando eu chegar faço o pix”... Enquanto isso, enquanto não chegamos, não chegamos a lugar nenhum. Os tempos fora de casa, cada vez mais escassos, as conversas após o trabalho, aquele papinho que te fazia esquecer da hora, do marido e a esposa brigava: onde você estava? E não era nada. Era apenas a conversa que vencia a batalha do tempo. O mundo silenciou, as palavras “traduzidas” agora em figurinhas; o papel sumiu dos bolsos. Os papeizinhos rabiscados, os minis blocos e as canetas: em extinção. Nunca se dependeu tanto dos polegares, forçaram ele a ter uma agilidade e utilidade jamais projetada para ele. As mãos então, essas, tiveram que ganhar super poderes. Não damos mais tchau. Não acenamos mais. Ficamos contidos. O celular nos roubou a espontaneidade. Quando você ouviu ou desferiu uma gotosíssima gargalhada? Você lembra? Não gargalhamos mais! Ela ficou contida também: “kkkk” e só. Nossos olhos precisam de lubrificantes, vejam só que absurdo. Estamos piscando quase nada. Não piscamos nem para o celular. Estamos paralisados, sem nos movimentar, talvez porque nos fizeram “crer” que as mãos seriam suficientes.
Vou relatar a experiencia que tenho em meu local de trabalho. Sou professor e vejo uma diferença doída entre os próprios colegas. A sala de professores era um ambiente, por vezes até descontraído, de troca de experiências e de conversa amigável... E as gargalhadas. Hoje a tristeza e as conversas (que mais parecem um breve recado), estão ficando mais escassas. Substituímos as trocas de energias, de sorrisos, por trocas de arquivos. Poderíamos por exemplo fazermos trocas de livros. A sala parece vazia e com os cotovelos sobre a mesa, dependendo da testa, só se avista parte delas. Fico olhando, mas sinto constrangimento em incomodar. Falar incomoda e tira tempo do pouco tempo que temos para viver, penso. Aí, me calo. A sala de nossos colegas professores é um ambiente tão rápido de interação já por natureza, devido aos horários que se tem a cumprir, se tornou mais curto ainda, para dar tempo “a falta de tempo”.
Paço do Lumiar-MA, 11 de fevereiro de 2026.
Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras - ALPL do município de Paço do Lumiar-MA, professor, escritor, palestrante, ator e diretor de teatro e poeta maranhense.