Essa frase clichê de que as pessoas saem da igreja por causa de pessoas, então é porque não estava lá por causa de Jesus, isso é um enorme equívoco, uma sandice sem freio e o pior: por um tempo, eu até comprei essa ideia. Coisa de quem ainda estava amadurecendo. Hoje ouço esse discurso e vejo claramente um julgamento como se a pessoa tivesse saído da “igreja” porque se distraiu com gente demais e esqueceu Jesus. Mas isso não faz sentido. A realidade costuma ser outra: muita gente sai porque não conseguiu enxergar Jesus nas pessoas. Porque não viu o caráter de Cristo sendo construído, vivido, encarnado nas relações.
Essa frase funciona quase como um álibi. Serve, sobretudo, para tirar da “igreja” a responsabilidade pela falta de acolhimento, de discipulado, de cuidado real; da falta visita, da falta abraço, a falta escuta, a falta do caminhar junto. E, no fundo, as pessoas não querem “menos Jesus”. Elas querem justamente o contrário: querem encontrar Jesus nos gestos, nas atitudes, no jeito de viver de quem diz segui-lo. Dizer “não foque nas pessoas, foque só em Jesus, porque pessoas falham” ... é outro argumento frágil. Claro que pessoas falham, disso a gente sabe. Mas a fé cristã nunca foi uma experiência isolada, individualista, vivida no vácuo. O próprio apóstolo Paulo disse algo forte: “Sejam meus imitadores, como eu sou de Cristo”. Em outras palavras, olhem para mim e percebam Cristo em mim. Existe responsabilidade aí! Não dá para fugir disso. Esse discurso de líder cristão que diz “não olha pra mim, eu sou falho, segue só Jesus” soa humilde, mas muitas vezes é só fuga. Porque, sim, somos falhos. Mas também somos chamados a refletir Cristo. A igreja primitiva entendia isso muito bem. Em Atos 2, o que vemos é um povo que caía na graça de todos. E, como consequência, o Senhor acrescentava, dia após dia, os que iam sendo salvos. Não é o pastor que segura as pessoas na “igreja”. Não é o louvor, a estrutura, a programação impecável. O que realmente cria permanência são os relacionamentos. As pessoas buscam a “igreja” porque querem pertencer, criar vínculos, caminhar com outros que compartilham do mesmo Jesus o qual depositam a sua fé. E aí quando esses vínculos não existem ou quando estão vazios de amor, graça e verdade, as pessoas vão embora. Sim, elas saem por causa de pessoas. Mas não porque deixaram de buscar Jesus. Saem porque não conseguiram encontrá-lo ali: Agora sim posso dizer IGREJA. Não busqueis no TEMPLO, o que só encontreis na IGREJA, que somos NÓS. Por isso o tempo inteiro está entre aspas a palavra igreja aqui. Certo dia passeando pela internet deparei-me com um vídeo do pastor Ed René Kivitz, que não é o meu preferido nem compactuo com suas sandices, mas em particular essa fala dele onde ele conta uma história que pode ajudar a entender a questão: Uma jovem saiu da igreja dele, que já era grande e bem estruturada, para congregar numa igreja pequena e simples. Ele foi visitá-la, não para convencê-la a voltar, mas para ouvi-la. Ele queria entender o motivo, aprender com tal atitude da jovem. E ela foi direta: disse que amava a igreja dele, que não tinha nenhuma crítica. Mas que, naquela outra comunidade menor, estavam as pessoas que ela amava, seus amigos, seus vínculos. Era ali que ela se sentia em casa. Pronto. Foi uma virada de chave. As pessoas permanecem onde há relação, afeto, cuidado. Onde o amor de Cristo não é só discurso, mas prática diária. Onde o evangelho ganha rosto, nome, abraço e caminhada conjunta. É isso que sustenta um templo com igrejas vivas dentro dele.
Paço do Lumiar-MA 31 de janeiro de 2026.
Lei de Direitos Autorais nº 9.610/1998, reservados ao autor Emerson de S. M. Cruz, Membro da Academia Luminense de Letras – ALPL, professor, escritor, palestrante, ator e diretor de teatro e poeta maranhense.